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Chorocrítica: O Homem do Jazz tem muito amor, muito drama e pouco jazz

outubro 08, 2022Cacau dos Santos

Assim que foi lançado na Netflix, o filme "O Homem do Jazz" acabou gerando um certo burburinho entre o público e teve um bom desempenho nos seus primeiros dias exibição no streaming. Escrito, dirigido e produzido por Tyler Perry (o mago dos filmes para o público preto), a história apresenta um amor proibido entre dois jovens periféricos e um drama familiar que é revelado 40 anos depois. Ou seja, tinha tudo pra ser um daqueles dramas que cativa e ganha o coração do público mas o resultado não é bem o esperado. 

A história se passa na Georgia e já começa com uma idosa insistindo em ver um homem que está concorrendo a um cargo político. Mas por ela ser uma mulher de cor, ele, um homem branco, se recusa a lhe receber. Mas a insistência dessa mulher acaba vencendo e ela entrega a este homem um molho de cartas. E é aí que somos introduzidos a história de Bayou (Joshua Boone), um jovem preto sulista, que mora numa área isolada com sua família e alguns amigos. Bayou é bom, educado e muito humilde, e constante vítima dos deboches de seu irmão Willie (Austin Scott) e de seu pai Buster (E.Roger Mitchell). E mesmo com todo o carinho que recebe de sua mãe (Amirah Vann), ainda assim Bayou se sente sozinho e deslocado. Mas tudo muda com a chegada de Leanne (Solea Pfeiffer), uma jovem mestiça que foi deixada pela mãe para viver com seu avô. 


Bayou e Leanne se apaixonam no primeiro olhar e logo iniciam uma bela e pura relação, com encontros noturnos onde Leanne sempre joga aviões de papel pela janela do quarto de Bayou. Sendo esse o sinal para eles se encontrarem na beira do rio. É Leanne quem ensina Bayou a ler e o motiva a cantar, enquanto Bayou se torna seu porto seguro e a ajuda a se manter afastada de seu asqueroso avô.

PAUSA: Há uma cena muito forte e que desperta um gatilho e, sinceramente, não havia necessidade de ser exibida. Mesmo que dure poucos segundo, ela mexe demais com o emocional de qualquer um. Nessa eles perderam a mão e é à partir daqui que a coisa começa a ficar rápida e chata.


A mãe de Leanne descobre o romance dos dois e a leva para outra cidade, cortando qualquer meio de comunicação entre eles. Bayou ainda escreve diversas cartas para a amada mas todas são estornada. De coração partido, ele se alista no exército enquanto seu pai e irmão saem de casa em busca da fama e sua mãe também se vê obrigada a mudar de cidade e abre um boteco próprio para o público preto. Um ambiente animado e regado a muito jazz. E após ser ferido em campo, Bayou passa a trabalhar com a mãe e volta a cantar. Willie também faz o cão arrependido e volta para o aconchego do novo lar, acompanhado de um homem alemão chamado Ira (Ryan Eggold), o qual afirma ser seu empresário. E no meio de tantas reviravoltas, Bayou e Leanne se reencontram mas agora ela é uma mulher casada com um homem branco e extremamente racista, e que não faz ideia de que sua esposa seja filha de uma pessoa de cor.

+ UMA PAUSA: Como que o cara não percebe que Leanne é mestiça se está claro seus traços pretos? Faz favor! Outra bola fora da história mas vamos em frente.


Leanne e Bayou até tentam reviver sua história de amor mas mais uma vez as rápidas reviravoltas fazem com que o rapaz se veja obrigado a fugir as pressas com o irmão e com Ira. E é aí que, finalmente, Bayou faz jus ao título do filme e se torna o Homem do Jazz depois que inicia uma afortunada carreira como cantor.

Por fim nada dá certo já que Bayou não consegue esquecer Leanne, e aproveita de uma situação para visitar a mãe e assim ir atrás da amada. Por aí vocês já podem imaginar o que vai acontecer, pegando um gancho com as cenas inicias do filme. O que é bem revoltante e muito, MUITO frustante. Não tem como não gostar de Bayou, e sentir raiva por ele ser tão educado e apaixonado. Mas ainda assim a gente cria um carinho por ele e espera que o rapaz se torne mais esperto e tome um rumo diferente na vida. Mas Bayou insiste em salvar a amada e com isso cava a própria cova.

Quanto a Leanne, coitada, essa aí comeu todos os pães que o diabo amassou. Mas a menina sofre mesmo é nas mãos de sua própria mãe (Lana Young), que a manipula de todas as formas e se torna a responsável pela sentença de morte de Bayou. Mesmo assim, em alguns momentos, não tem como você não sentir um pouco de raiva de Leanne já que ela poderia ter evitado o pior se não tivesse ido atrás de Bayou.

Resumindo: "O Homem do Jazz" tem muita história pra contar mas não consegue se concentrar em nada. É tudo muito apressado e deixa muitas pontas soltas. Nem dá tempo da gente curtir a carreira de Bayou, na verdade não dá nem pra curtir o jazz em si, que é ótimo e muito bem interpretado mas muito mal aproveitado. Uma pena já que a trilha sonora está impecável. A sinopse é boa mas a execução da história é fraca. Dá raiva não termos informações necessárias como qual foi o motivo que fez com que a mãe de Leanne a deixasse com o avô se ela temia tanto que a filha se envolvesse com pessoas de cor? E se o avô de Leanne era um homem violento com a neta, com certeza era com a mãe dela, então como ela pôde deixá-la morar com esse crápula? E quem era o pai biólógico de Bayou? E o que houve com Willie depois que ele entregou o próprio irmão as autoridades? Talvez "O Homem do Jazz" funcionasse melhor se fosse uma série, aí sim daria tempo de mostrar tudo, incluindo o próprio jazz. 


Mas para não dizer que nada se salva nesse filme, o final tem um ótimo plot twist que mexe com o emocional de qualquer um. Mesmo sabendo desde o início que Bayou ia morrer, ainda assim quando suas cartas são todas lidas por um desconhecido, não tem como a gente não chorar.

Como comentário final: Acho que o filme poderia se chamar "Aviões de Papel", referente a forma como Bayou e Leanne começaram a se comunicar e como isso foi tão simbólico na relação deles. A ponto de Bayou gravar uma música para Leanne com esse nome e esse ser o tema final do filme. Aliás essa seria uma ótima aposta para o Oscar 2023 na categoria Melhor Canção Original.

Confira só essa lindeza:


Música linda para um filme fofo, mas fraco.



O Homem do Jazz (2022)
Título original: A Jazzman´s Blue
Direção: Tyler Perry
Elenco: Joshua Boone, Solea Pfeiffer, Amirah Vann, Austin Scott, Ryan Eggold, Milauna Jackson e Lana Young.
Merece quantas barrinhas de chocolate? 🍫🍫 e 🧦

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Projeto com conteúdo 100% autoral, baseados em situações que ocorreram em minha vida. Alguns personagens são fictícios, outros tiveram seus nomes e características físicas alterados para preservar a identidade real dos envolvidos.

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